Como fotografar a Via Láctea: guia de astrofotografia para iniciantes
Neste artigo
- Quando dá para ver a Via Láctea no Brasil?
- A hora certa: o crepúsculo e a Lua
- Onde ver a Via Láctea no Brasil: a escala de Bortle
- Configuração da câmera para fotografar a Via Láctea
- Rastros de estrelas: o que fazer quando a Lua nasce
- Dá para fotografar a Via Láctea com celular?
- Planeje a noite no simulador antes de sair de casa
- Deu errado? O que mudar
- Perguntas frequentes
Se você chegou aqui, provavelmente já viu uma foto da Via Láctea sobre uma estrada ou uma montanha e pensou: como é que se faz isso? A resposta tem menos a ver com a câmera do que parece. Quem volta de viagem sem a Via Láctea quase nunca errou o ISO: errou a data, a hora, a direção ou o lugar. Neste artigo eu mostro as quatro coisas que decidem a foto e os ajustes que funcionam. Todas as fotos foram feitas no simulador do Canal da Foto, com o céu de verdade de cada data e lugar, e você pode repetir tudo em casa antes de pegar a estrada.
Escolha a noite: Lua nova, temporada do núcleo e o céu já escuro.
Escolha o lugar: céu escuro (Bortle 1 a 3) e a cidade nas suas costas.
Ajuste a câmera: grande-angular aberta, foco no infinito, 20 s, ISO 3200.
Resposta rápida: para fotografar a Via Láctea você precisa de um céu escuro, longe das cidades, de uma noite sem Lua e da câmera no tripé. No Brasil, a temporada vai de fevereiro a outubro, e de abril a agosto o núcleo fica alto boa parte da noite. Comece com uma grande-angular (14 a 24 mm) na abertura máxima, f/2.8 ou mais clara, foco manual no infinito, 15 a 20 segundos, ISO 3200 e balanço de branco entre 3000 e 4000 K.
O simulador do Canal da Foto roda no navegador do computador, do tablet e do celular, em português, e é onde acontece o curso de fotografia do Canal da Foto.
Quando dá para ver a Via Láctea no Brasil?
A faixa clara que cruza o céu é a nossa galáxia vista de dentro. A parte que todo mundo quer na foto é o núcleo, a região mais brilhante, com nuvens de estrelas e faixas escuras de poeira, na direção da constelação de Sagitário. No Brasil ele nasce no leste-sudeste, passa quase por cima da cabeça e se põe no oeste-sudoeste.
A temporada vai de fevereiro a outubro. O melhor é de abril a agosto, que no Centro-Oeste e no Sudeste também é a estação seca, com mais noites limpas. De novembro a janeiro o núcleo fica do lado do Sol e não aparece no céu escuro.
| Mês | Onde e quando o núcleo aparece (perto de 23° S) |
|---|---|
| Fevereiro e março | Nasce de madrugada; baixo no leste antes do amanhecer |
| Abril | Nasce perto das 22 h; quase a pino antes do amanhecer |
| Maio e junho | Já aparece no começo da noite; a pino entre a meia-noite e as 2 h |
| Julho e agosto | Alto logo que escurece; se põe de madrugada |
| Setembro e outubro | Só no começo da noite, já descendo para o oeste |

As horas da tabela são solares, para meados de cada mês. A hora do relógio pode variar até uma hora conforme a cidade e o fuso, e é por isso que vale conferir o lugar exato antes de ir (último capítulo).
A hora certa: o crepúsculo e a Lua
Depois que o Sol se põe, ainda leva cerca de 1 h 15 min para a noite ficar escura de verdade. O Sol a 6° abaixo do horizonte encerra a hora azul, a 12° o crepúsculo náutico, e só abaixo de 18° começa a noite astronômica. Antes disso o céu ainda brilha e esconde a Via Láctea.



E a Lua manda na noite. A Lua cheia clareia o céu tanto que a Via Láctea some, mesmo no lugar mais escuro. Procure a Lua nova, ou uma noite em que a Lua já se pôs ou ainda não nasceu. Ela nasce uns 50 minutos mais tarde a cada dia: a crescente se põe no começo da noite e deixa a madrugada escura; a minguante nasce de madrugada e deixa o começo da noite escuro.


Onde ver a Via Láctea no Brasil: a escala de Bortle
A escala de Bortle diz o quanto um céu é escuro pelo que se vê nele, de 1 (o céu mais escuro da Terra) a 9 (o centro de uma cidade grande). Quem mora no Rio de Janeiro (Bortle 8) ou em São Paulo (Bortle 9) não vê a Via Láctea de casa, por melhor que seja a câmera. Um céu 1 a 3 costuma estar a algumas horas de estrada.




As quatro fotos são a mesma câmera, a mesma noite e a mesma direção. Em cada céu eu baixei o ISO até o histograma caber, como você faria em campo, e mesmo assim o núcleo não volta.
| Bortle | O que você vê a olho nu | Exemplos | Para a foto |
|---|---|---|---|
| 1–2 | Via Láctea cheia de detalhes, faz até sombra no chão | Jalapão, Chapada dos Veadeiros | O núcleo com todas as cores e faixas de poeira |
| 3 | Domos de luz fracos no horizonte | Fazenda a 50 km ou mais de uma cidade média | Excelente; aponte para o lado sem domo |
| 4–5 | Via Láctea bonita no alto, apagada perto do horizonte | Brotas, a beira de uma cidade pequena | Ainda rende acima de uns 30° |
| 6–7 | Só um véu perto do zênite, ou nada | Bairros de cidades médias, borda de capital | Melhor para Lua, planetas e rastros |
| 8–9 | Céu laranja ou cinza, poucas estrelas | Rio de Janeiro, centro de São Paulo | Paisagem urbana noturna |
Dica: abra um mapa de poluição luminosa, como o lightpollutionmap.info, e procure as manchas cinza-escuras e azuis longe das manchas amarelas das cidades. E escolha um lugar com a cidade atrás de você: uma cidade a 30 ou 50 km acende um domo no horizonte, na direção dela.
Configuração da câmera para fotografar a Via Láctea
| Ajuste | Ponto de partida | Por quê |
|---|---|---|
| Lente | 14 a 24 mm, f/2.8 ou mais clara | Pega um pedaço grande do céu e aceita exposições mais longas |
| Foco | Manual, no infinito | O autofoco não acha estrela. Amplie uma estrela brilhante na tela (10×) e gire o anel até ela virar o menor ponto; muitas lentes passam do ∞ |
| Tempo | 15 a 20 s (regra NPF) | A Terra gira 15° por hora; mais que isso e a estrela vira risco |
| ISO | 3200 | Com f/2.8 e 20 s, o histograma sai da parede da esquerda |
| Balanço de branco | 3000 a 4000 K | Céu azul em vez de marrom (veja abaixo) |
| Arquivo e disparo | RAW, tripé, atraso de 2 s ou controle remoto | Nenhum tremor, e a cor se decide depois |
Regra dos 500 ou regra NPF?
A regra dos 500 é a conta rápida: 500 dividido pela distância focal (vezes o fator de corte numa APS-C). Com 15 mm dá 33 s. A regra NPF é mais exigente, porque leva em conta o tamanho do pixel: (35 × abertura + 30 × pixel em µm) ÷ focal. Numa full frame de 20 MP (pixel de 6,6 µm) a f/2.8, dá 20 s com 15 mm e 8 s com 35 mm. Com sensores de muitos megapixels, a regra dos 500 já deixa um rastro visível.



Balanço de branco: céu azul em vez de marrom



Em Luz do dia (5600 K) o céu sai marrom e o brilho da cidade no horizonte fica laranja. Por volta de 3000 a 3500 K ele fica azul, como a noite parece ao olho. Sobra um leve tom verde, do brilho natural da alta atmosfera: na revelação, um toque de magenta no matiz resolve. As fotos de céu deste artigo foram feitas a 3000 K, com níveis, uma curva e esse toque de magenta, o mesmo ajuste em todas.
Rastros de estrelas: o que fazer quando a Lua nasce
A Lua nasceu e a Via Láctea sumiu? Vire o tripé para o sul e deixe a Terra desenhar. O jeito de hoje é fazer muitas fotos de 20 a 30 s, uma atrás da outra, com o intervalômetro, e somá-las no computador com o modo Clarear (StarStaX, Sequator ou Photoshop). Uma hora com fotos de 30 s e 1 s de intervalo dá 116 fotos, e cada estrela anda 15° no céu.


A forma do rastro depende só da direção. Para o sul, círculos em volta do polo sul celeste. Para o norte, arcos largos, porque o polo norte está abaixo do horizonte. Para o leste ou o oeste, diagonais: as estrelas nascendo ou se pondo.


Baixe o ISO nas pilhas: 400 a 800. Com 3200, milhares de estrelas fracas viram riscos e o céu fica branco, estourado. E desligue a redução de ruído de longa exposição: ela faz a câmera esperar mais 30 s depois de cada foto, e os rastros saem tracejados.
Como achar o polo sul pelo Cruzeiro do Sul
No hemisfério sul não existe uma estrela brilhante no polo, como a Polaris no norte. Ache o Cruzeiro do Sul, pegue o braço comprido da cruz, de Gacrux (a de cima, alaranjada) para Acrux (a do pé), e continue nessa direção umas 4 vezes e meia o tamanho da cruz. Ali fica o polo, a uma altura igual à sua latitude: 23,5° acima do horizonte em São Paulo, 8° em Recife, 30° em Porto Alegre.

Dá para fotografar a Via Láctea com celular?
Dá, com limites. Vários celulares recentes têm um modo noturno ou de astrofotografia que, com o aparelho num tripé, faz várias fotos longas e junta tudo sozinho. Num céu Bortle 1 a 3, sem Lua, o núcleo aparece. O que não muda é o resto deste artigo: a temporada, a hora, a Lua e o lugar valem igual para o celular. A diferença é a qualidade, porque o sensor pequeno junta menos luz e a foto sai com mais ruído e menos detalhe que numa câmera com uma grande-angular clara.
Planeje a noite no simulador antes de sair de casa
As fotos deste artigo saíram do simulador do Canal da Foto, uma cena chamada Desert Highway à noite: uma estrada no deserto com o céu de verdade, com as estrelas do catálogo, a Via Láctea mapeada pela NASA e o brilho do céu medido. No modo Vida real você escolhe o lugar da viagem (a lista tem a Chapada dos Veadeiros, o Jalapão e Brotas, ou você digita latitude e longitude), a data e o fuso. Só o céu muda, o chão continua o mesmo, e você vê a foto pronta antes de comprar a passagem.


O planejador desenha por cima do visor o caminho do núcleo durante a noite, com as horas, o polo celeste com o tamanho dos círculos de rastro, e uma linha do tempo com o pôr do sol, os crepúsculos, a Lua no céu e o amanhecer. A Lua é calculada com efemérides completas: fase e horário de nascer e de pôr com erro de um ou dois minutos. Para rastros, o modo de disparo Intervalômetro faz a pilha inteira, de 15 minutos até a noite toda, e você vê o resultado em segundos.


E o que o céu não ensina, o curso ensina. No Descomplicando a Fotografia, o curso que acontece dentro do simulador, você aprende a fotografar no modo M, a ler o histograma, a escolher o ISO e o balanço de branco e a fazer longa exposição à noite, com aulas como ISO, o último ajuste: uma festa sem flash, Escuro ou claro demais? Leia o histograma e Uma noite no parque de diversões. Quando chegar a noite da viagem, você não vai estar aprendendo a câmera no escuro.
Deu errado? O que mudar
| O que você vê | O que mudar |
|---|---|
| Estrelas viraram tracinhos | Encurte o tempo (regra NPF) ou use uma lente mais curta; suba o ISO para compensar |
| Tudo desfocado | Foco manual: amplie uma estrela brilhante na tela e gire até o menor ponto |
| Céu marrom ou laranja | Balanço de branco entre 3000 e 4000 K, ou ajuste no RAW |
| Horizonte branco, estourado | Há uma cidade nessa direção: vire para o outro lado ou baixe o ISO |
| Céu claro e sem Via Láctea | Lua no céu ou crepúsculo: confira a Lua e espere o Sol a −18° |
| Rastros tracejados | Desligue a redução de ruído de longa exposição e use 1 s de intervalo |
| Rastros brancos demais | Baixe o ISO da pilha para 400–800 |
Perguntas frequentes
Qual a melhor época para ver a Via Láctea no Brasil?
De fevereiro a outubro, e o melhor é de abril a agosto, quando o núcleo fica alto boa parte da noite e, no Centro-Oeste e no Sudeste, é a estação seca. Escolha uma noite de Lua nova e espere o céu escurecer de vez, cerca de 1 h 15 min depois do pôr do sol.
Onde ver a Via Láctea no Brasil?
Longe das cidades, num céu Bortle 1 a 3: o Jalapão, a Chapada dos Veadeiros, o sertão, o alto de serras e praias desertas longe de centros urbanos. Um mapa de poluição luminosa mostra as áreas escuras perto de você. Escolha um lugar com a cidade mais próxima atrás de você, não na frente.
Qual a melhor configuração para fotografar a Via Láctea?
Um bom ponto de partida é uma grande-angular de 14 a 24 mm na abertura máxima (f/2.8 ou mais clara), foco manual no infinito, 15 a 20 segundos, ISO 3200, balanço de branco entre 3000 e 4000 K, arquivo RAW, tripé e disparo com atraso de 2 s. Depois ajuste pelo histograma.
O que é a regra dos 500?
É uma conta rápida para o tempo máximo antes de as estrelas virarem riscos: 500 dividido pela distância focal (vezes o fator de corte numa APS-C). Com 15 mm dá 33 s. A regra NPF é mais precisa, porque considera o tamanho do pixel: numa full frame de 20 MP a f/2.8, dá 20 s com 15 mm.
O que é a escala de Bortle?
É uma escala de 1 a 9 que diz o quanto o céu de um lugar é escuro pelo que se vê nele. Bortle 1 é o céu mais escuro da Terra, com a Via Láctea fazendo sombra; Bortle 9 é o centro de uma cidade grande. Para fotografar a Via Láctea, procure Bortle 1 a 3. Rio de Janeiro é 8 e São Paulo, 9.
Dá para fotografar a Via Láctea com celular?
Dá, com limites. Vários celulares têm modo noturno ou de astrofotografia que, num tripé, faz várias fotos longas e junta tudo. Num céu escuro e sem Lua o núcleo aparece, mas com mais ruído e menos detalhe que numa câmera com lente grande-angular clara.
Como fazer foto de rastro de estrelas?
Com a câmera no tripé, faça muitas fotos de 20 a 30 s seguidas com o intervalômetro, com 1 s de intervalo, e some tudo com o modo Clarear (StarStaX, Sequator ou Photoshop). Uma hora dá 116 fotos de 30 s. Use ISO 400 a 800 e desligue a redução de ruído de longa exposição. Para o sul, as estrelas giram em círculos.
Todas as fotos deste artigo foram feitas no simulador do Canal da Foto, com o céu calculado para cada data, hora e lugar.

