Fotografia

Como fotografar a Via Láctea: guia de astrofotografia para iniciantes

Neste artigo
  1. Quando dá para ver a Via Láctea no Brasil?
  2. A hora certa: o crepúsculo e a Lua
  3. Onde ver a Via Láctea no Brasil: a escala de Bortle
  4. Configuração da câmera para fotografar a Via Láctea
  5. Rastros de estrelas: o que fazer quando a Lua nasce
  6. Dá para fotografar a Via Láctea com celular?
  7. Planeje a noite no simulador antes de sair de casa
  8. Deu errado? O que mudar
  9. Perguntas frequentes
Astrofotografia · Guia para iniciantes

Se você chegou aqui, provavelmente já viu uma foto da Via Láctea sobre uma estrada ou uma montanha e pensou: como é que se faz isso? A resposta tem menos a ver com a câmera do que parece. Quem volta de viagem sem a Via Láctea quase nunca errou o ISO: errou a data, a hora, a direção ou o lugar. Neste artigo eu mostro as quatro coisas que decidem a foto e os ajustes que funcionam. Todas as fotos foram feitas no simulador do Canal da Foto, com o céu de verdade de cada data e lugar, e você pode repetir tudo em casa antes de pegar a estrada.

Passo 1

Escolha a noite: Lua nova, temporada do núcleo e o céu já escuro.

Passo 2

Escolha o lugar: céu escuro (Bortle 1 a 3) e a cidade nas suas costas.

Passo 3

Ajuste a câmera: grande-angular aberta, foco no infinito, 20 s, ISO 3200.

Resposta rápida: para fotografar a Via Láctea você precisa de um céu escuro, longe das cidades, de uma noite sem Lua e da câmera no tripé. No Brasil, a temporada vai de fevereiro a outubro, e de abril a agosto o núcleo fica alto boa parte da noite. Comece com uma grande-angular (14 a 24 mm) na abertura máxima, f/2.8 ou mais clara, foco manual no infinito, 15 a 20 segundos, ISO 3200 e balanço de branco entre 3000 e 4000 K.

O simulador do Canal da Foto roda no navegador do computador, do tablet e do celular, em português, e é onde acontece o curso de fotografia do Canal da Foto.

Quando dá para ver a Via Láctea no Brasil?

A faixa clara que cruza o céu é a nossa galáxia vista de dentro. A parte que todo mundo quer na foto é o núcleo, a região mais brilhante, com nuvens de estrelas e faixas escuras de poeira, na direção da constelação de Sagitário. No Brasil ele nasce no leste-sudeste, passa quase por cima da cabeça e se põe no oeste-sudoeste.

A temporada vai de fevereiro a outubro. O melhor é de abril a agosto, que no Centro-Oeste e no Sudeste também é a estação seca, com mais noites limpas. De novembro a janeiro o núcleo fica do lado do Sol e não aparece no céu escuro.

MêsOnde e quando o núcleo aparece (perto de 23° S)
Fevereiro e marçoNasce de madrugada; baixo no leste antes do amanhecer
AbrilNasce perto das 22 h; quase a pino antes do amanhecer
Maio e junhoJá aparece no começo da noite; a pino entre a meia-noite e as 2 h
Julho e agostoAlto logo que escurece; se põe de madrugada
Setembro e outubroSó no começo da noite, já descendo para o oeste
O núcleo da Via Láctea descendo no oeste-sudoeste sobre uma estrada no deserto, numa noite de setembro
Setembro, perto das 22h40: o núcleo descendo no oeste-sudoeste. 15 mm, f/2.8, 20 s, ISO 3200, 3000 K.

As horas da tabela são solares, para meados de cada mês. A hora do relógio pode variar até uma hora conforme a cidade e o fuso, e é por isso que vale conferir o lugar exato antes de ir (último capítulo).

A hora certa: o crepúsculo e a Lua

Depois que o Sol se põe, ainda leva cerca de 1 h 15 min para a noite ficar escura de verdade. O Sol a 6° abaixo do horizonte encerra a hora azul, a 12° o crepúsculo náutico, e só abaixo de 18° começa a noite astronômica. Antes disso o céu ainda brilha e esconde a Via Láctea.

Estrada no deserto no fim da hora azul, céu ainda azul claro
Sol a −6°fim da hora azul
Estrada no deserto no fim do crepúsculo náutico, céu azul escuro com as primeiras estrelas
Sol a −12°fim do crepúsculo náutico
Estrada no deserto na noite astronômica, céu escuro cheio de estrelas
Sol a −18°noite astronômica

E a Lua manda na noite. A Lua cheia clareia o céu tanto que a Via Láctea some, mesmo no lugar mais escuro. Procure a Lua nova, ou uma noite em que a Lua já se pôs ou ainda não nasceu. Ela nasce uns 50 minutos mais tarde a cada dia: a crescente se põe no começo da noite e deixa a madrugada escura; a minguante nasce de madrugada e deixa o começo da noite escuro.

Via Láctea nítida numa noite sem Lua
Sem LuaISO 3200: a noite que você quer.
A mesma estrada com Lua cheia: céu azul claro e a Via Láctea sumiu
Lua cheiamesmo lugar, mesma hora, ISO 400: a Via Láctea some.

Onde ver a Via Láctea no Brasil: a escala de Bortle

A escala de Bortle diz o quanto um céu é escuro pelo que se vê nele, de 1 (o céu mais escuro da Terra) a 9 (o centro de uma cidade grande). Quem mora no Rio de Janeiro (Bortle 8) ou em São Paulo (Bortle 9) não vê a Via Láctea de casa, por melhor que seja a câmera. Um céu 1 a 3 costuma estar a algumas horas de estrada.

A mesma foto da Via Láctea num céu Bortle 1
Bortle 1 · ISO 3200Jalapão, sertão longe de cidades.
A mesma foto num céu Bortle 4, com o horizonte claro
Bortle 4 · ISO 1600cidade pequena do interior, como Brotas.
A mesma foto num céu Bortle 6: a Via Láctea virou um véu fraco
Bortle 6 · ISO 800bairro de uma cidade média.
A mesma foto num céu Bortle 9: só as estrelas mais fortes
Bortle 9 · ISO 400centro de São Paulo.

As quatro fotos são a mesma câmera, a mesma noite e a mesma direção. Em cada céu eu baixei o ISO até o histograma caber, como você faria em campo, e mesmo assim o núcleo não volta.

BortleO que você vê a olho nuExemplosPara a foto
1–2Via Láctea cheia de detalhes, faz até sombra no chãoJalapão, Chapada dos VeadeirosO núcleo com todas as cores e faixas de poeira
3Domos de luz fracos no horizonteFazenda a 50 km ou mais de uma cidade médiaExcelente; aponte para o lado sem domo
4–5Via Láctea bonita no alto, apagada perto do horizonteBrotas, a beira de uma cidade pequenaAinda rende acima de uns 30°
6–7Só um véu perto do zênite, ou nadaBairros de cidades médias, borda de capitalMelhor para Lua, planetas e rastros
8–9Céu laranja ou cinza, poucas estrelasRio de Janeiro, centro de São PauloPaisagem urbana noturna

Dica: abra um mapa de poluição luminosa, como o lightpollutionmap.info, e procure as manchas cinza-escuras e azuis longe das manchas amarelas das cidades. E escolha um lugar com a cidade atrás de você: uma cidade a 30 ou 50 km acende um domo no horizonte, na direção dela.

Configuração da câmera para fotografar a Via Láctea

AjustePonto de partidaPor quê
Lente14 a 24 mm, f/2.8 ou mais claraPega um pedaço grande do céu e aceita exposições mais longas
FocoManual, no infinitoO autofoco não acha estrela. Amplie uma estrela brilhante na tela (10×) e gire o anel até ela virar o menor ponto; muitas lentes passam do ∞
Tempo15 a 20 s (regra NPF)A Terra gira 15° por hora; mais que isso e a estrela vira risco
ISO3200Com f/2.8 e 20 s, o histograma sai da parede da esquerda
Balanço de branco3000 a 4000 KCéu azul em vez de marrom (veja abaixo)
Arquivo e disparoRAW, tripé, atraso de 2 s ou controle remotoNenhum tremor, e a cor se decide depois

Regra dos 500 ou regra NPF?

A regra dos 500 é a conta rápida: 500 dividido pela distância focal (vezes o fator de corte numa APS-C). Com 15 mm dá 33 s. A regra NPF é mais exigente, porque leva em conta o tamanho do pixel: (35 × abertura + 30 × pixel em µm) ÷ focal. Numa full frame de 20 MP (pixel de 6,6 µm) a f/2.8, dá 20 s com 15 mm e 8 s com 35 mm. Com sensores de muitos megapixels, a regra dos 500 já deixa um rastro visível.

Detalhe ampliado de uma estrela com 15 mm e 30 s, quase um ponto
15 mm, 30 squase um ponto
Detalhe ampliado de uma estrela com 35 mm e 30 s, esticada num tracinho
35 mm, 30 sum tracinho
Detalhe ampliado de uma estrela com 35 mm e 8 s, ponto de novo
35 mm, 8 so tempo NPF: ponto

Balanço de branco: céu azul em vez de marrom

Céu noturno com balanço de branco 3000 K, azulado
3000 Kazul
Céu noturno com balanço de branco 4000 K, neutro
4000 Kneutro
Céu noturno com balanço de branco 5600 K, quente e marrom
5600 Kquente

Em Luz do dia (5600 K) o céu sai marrom e o brilho da cidade no horizonte fica laranja. Por volta de 3000 a 3500 K ele fica azul, como a noite parece ao olho. Sobra um leve tom verde, do brilho natural da alta atmosfera: na revelação, um toque de magenta no matiz resolve. As fotos de céu deste artigo foram feitas a 3000 K, com níveis, uma curva e esse toque de magenta, o mesmo ajuste em todas.

Rastros de estrelas: o que fazer quando a Lua nasce

A Lua nasceu e a Via Láctea sumiu? Vire o tripé para o sul e deixe a Terra desenhar. O jeito de hoje é fazer muitas fotos de 20 a 30 s, uma atrás da outra, com o intervalômetro, e somá-las no computador com o modo Clarear (StarStaX, Sequator ou Photoshop). Uma hora com fotos de 30 s e 1 s de intervalo dá 116 fotos, e cada estrela anda 15° no céu.

Uma única foto de 30 segundos do céu do sul, estrelas como pontos
Uma foto, 30 sISO 3200: estrelas como pontos.
Uma hora de rastros de estrelas em círculos em volta do polo sul celeste
116 fotos, 1 horaISO 800: círculos em volta do polo sul celeste.

A forma do rastro depende só da direção. Para o sul, círculos em volta do polo sul celeste. Para o norte, arcos largos, porque o polo norte está abaixo do horizonte. Para o leste ou o oeste, diagonais: as estrelas nascendo ou se pondo.

Rastros de estrelas em diagonais subindo, olhando para o leste
Lestediagonais subindo.
Rastros de estrelas em arcos largos, olhando para o norte
Nortearcos largos.

Baixe o ISO nas pilhas: 400 a 800. Com 3200, milhares de estrelas fracas viram riscos e o céu fica branco, estourado. E desligue a redução de ruído de longa exposição: ela faz a câmera esperar mais 30 s depois de cada foto, e os rastros saem tracejados.

Como achar o polo sul pelo Cruzeiro do Sul

No hemisfério sul não existe uma estrela brilhante no polo, como a Polaris no norte. Ache o Cruzeiro do Sul, pegue o braço comprido da cruz, de Gacrux (a de cima, alaranjada) para Acrux (a do pé), e continue nessa direção umas 4 vezes e meia o tamanho da cruz. Ali fica o polo, a uma altura igual à sua latitude: 23,5° acima do horizonte em São Paulo, 8° em Recife, 30° em Porto Alegre.

O Cruzeiro do Sul e as estrelas guardas marcados no céu, com a linha que leva ao polo sul celeste
Olhando para o sul no fim de abril, às 21 h: o Cruzeiro, as duas guardas (Alfa e Beta do Centauro) e o polo sul celeste.

Dá para fotografar a Via Láctea com celular?

Dá, com limites. Vários celulares recentes têm um modo noturno ou de astrofotografia que, com o aparelho num tripé, faz várias fotos longas e junta tudo sozinho. Num céu Bortle 1 a 3, sem Lua, o núcleo aparece. O que não muda é o resto deste artigo: a temporada, a hora, a Lua e o lugar valem igual para o celular. A diferença é a qualidade, porque o sensor pequeno junta menos luz e a foto sai com mais ruído e menos detalhe que numa câmera com uma grande-angular clara.

Planeje a noite no simulador antes de sair de casa

As fotos deste artigo saíram do simulador do Canal da Foto, uma cena chamada Desert Highway à noite: uma estrada no deserto com o céu de verdade, com as estrelas do catálogo, a Via Láctea mapeada pela NASA e o brilho do céu medido. No modo Vida real você escolhe o lugar da viagem (a lista tem a Chapada dos Veadeiros, o Jalapão e Brotas, ou você digita latitude e longitude), a data e o fuso. Só o céu muda, o chão continua o mesmo, e você vê a foto pronta antes de comprar a passagem.

O planejador noturno do simulador na Chapada dos Veadeiros em 16 de maio, Lua nova, com o caminho do núcleo da Via Láctea e as horas
16 de maio · Lua novao caminho do núcleo com as horas, a bússola no horizonte e a linha do tempo da noite.
O mesmo lugar e a mesma hora em 31 de maio, Lua cheia: céu azul e a Via Láctea sumiu
31 de maio · Lua cheiamesmo lugar, mesma hora: duas semanas de diferença, e a foto não existe mais.

O planejador desenha por cima do visor o caminho do núcleo durante a noite, com as horas, o polo celeste com o tamanho dos círculos de rastro, e uma linha do tempo com o pôr do sol, os crepúsculos, a Lua no céu e o amanhecer. A Lua é calculada com efemérides completas: fase e horário de nascer e de pôr com erro de um ou dois minutos. Para rastros, o modo de disparo Intervalômetro faz a pilha inteira, de 15 minutos até a noite toda, e você vê o resultado em segundos.

O planejador voltado para o sul, com a marca do polo celeste e dois círculos de rastro
O polo celesteonde os rastros vão girar, e o tamanho dos círculos.
Aba Câmera do simulador: Disparo Intervalômetro, Mesclar Clarear, duração de 1 hora e intervalo de 1 segundo
Intervalômetro1 hora de rastros: 116 fotos de 30 s, mescladas com Clarear.

E o que o céu não ensina, o curso ensina. No Descomplicando a Fotografia, o curso que acontece dentro do simulador, você aprende a fotografar no modo M, a ler o histograma, a escolher o ISO e o balanço de branco e a fazer longa exposição à noite, com aulas como ISO, o último ajuste: uma festa sem flash, Escuro ou claro demais? Leia o histograma e Uma noite no parque de diversões. Quando chegar a noite da viagem, você não vai estar aprendendo a câmera no escuro.

Deu errado? O que mudar

O que você vêO que mudar
Estrelas viraram tracinhosEncurte o tempo (regra NPF) ou use uma lente mais curta; suba o ISO para compensar
Tudo desfocadoFoco manual: amplie uma estrela brilhante na tela e gire até o menor ponto
Céu marrom ou laranjaBalanço de branco entre 3000 e 4000 K, ou ajuste no RAW
Horizonte branco, estouradoHá uma cidade nessa direção: vire para o outro lado ou baixe o ISO
Céu claro e sem Via LácteaLua no céu ou crepúsculo: confira a Lua e espere o Sol a −18°
Rastros tracejadosDesligue a redução de ruído de longa exposição e use 1 s de intervalo
Rastros brancos demaisBaixe o ISO da pilha para 400–800

Perguntas frequentes

Qual a melhor época para ver a Via Láctea no Brasil?

De fevereiro a outubro, e o melhor é de abril a agosto, quando o núcleo fica alto boa parte da noite e, no Centro-Oeste e no Sudeste, é a estação seca. Escolha uma noite de Lua nova e espere o céu escurecer de vez, cerca de 1 h 15 min depois do pôr do sol.

Onde ver a Via Láctea no Brasil?

Longe das cidades, num céu Bortle 1 a 3: o Jalapão, a Chapada dos Veadeiros, o sertão, o alto de serras e praias desertas longe de centros urbanos. Um mapa de poluição luminosa mostra as áreas escuras perto de você. Escolha um lugar com a cidade mais próxima atrás de você, não na frente.

Qual a melhor configuração para fotografar a Via Láctea?

Um bom ponto de partida é uma grande-angular de 14 a 24 mm na abertura máxima (f/2.8 ou mais clara), foco manual no infinito, 15 a 20 segundos, ISO 3200, balanço de branco entre 3000 e 4000 K, arquivo RAW, tripé e disparo com atraso de 2 s. Depois ajuste pelo histograma.

O que é a regra dos 500?

É uma conta rápida para o tempo máximo antes de as estrelas virarem riscos: 500 dividido pela distância focal (vezes o fator de corte numa APS-C). Com 15 mm dá 33 s. A regra NPF é mais precisa, porque considera o tamanho do pixel: numa full frame de 20 MP a f/2.8, dá 20 s com 15 mm.

O que é a escala de Bortle?

É uma escala de 1 a 9 que diz o quanto o céu de um lugar é escuro pelo que se vê nele. Bortle 1 é o céu mais escuro da Terra, com a Via Láctea fazendo sombra; Bortle 9 é o centro de uma cidade grande. Para fotografar a Via Láctea, procure Bortle 1 a 3. Rio de Janeiro é 8 e São Paulo, 9.

Dá para fotografar a Via Láctea com celular?

Dá, com limites. Vários celulares têm modo noturno ou de astrofotografia que, num tripé, faz várias fotos longas e junta tudo. Num céu escuro e sem Lua o núcleo aparece, mas com mais ruído e menos detalhe que numa câmera com lente grande-angular clara.

Como fazer foto de rastro de estrelas?

Com a câmera no tripé, faça muitas fotos de 20 a 30 s seguidas com o intervalômetro, com 1 s de intervalo, e some tudo com o modo Clarear (StarStaX, Sequator ou Photoshop). Uma hora dá 116 fotos de 30 s. Use ISO 400 a 800 e desligue a redução de ruído de longa exposição. Para o sul, as estrelas giram em círculos.

Todas as fotos deste artigo foram feitas no simulador do Canal da Foto, com o céu calculado para cada data, hora e lugar.

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